sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ÉTICA



                É um tema amplo, complexo e filosófico.  Nasceu com Sócrates, que distinguiu o bem do mal. Paradoxalmente, dizia que “a culpa é apenas erro, quando o erro torna-se uma culpa”. Já  seu  discípulo Platão afirmava  que “aquele que conhece verdadeiramente o  bem não pode fazer o mal”.
No decorrer dos tempos diversos filósofos dissertaram sobre a ética dizendo que “é o principio ordenador da sociedade”.
Ciência centenária, a ética tem dentro de si mesma varias subdivisões. A bioética dedica-se ao estudo da sociedade humana, cuja responsabilidade é multidisciplinar. Há a macroética, que está ligada à ecologia, ao meio ambiente e à saúde coletiva.  Existe a microética, que trata das questões individualmente, fruto da ética, mas constituída de um modo geral.
Aos médicos torna-se difícil conciliar os conceitos éticos e legais na profissão. A evolução tecnológica, a competição, as questões legais e formais levam ao seu desrespeito. Nossa preocupação como médico é preservar a ética. Princípios como a família do paciente, as suas condições sociais, financeiras e emocionais são fundamentais à ética médica.
Como filhos da terra começamos nossa vida preparando-a com limpeza, adubação. Lançamos a semente para germinação, crescimento, floração, frutificação e a colheita. Colhemos os frutos com carinho, com amor, com orgulho, contribuindo para alimentar a humanidade. Essa experiência com a terra preparou-nos para uma vida na qual o respeito à natureza nos ensina os primeiros princípios de apoio à sustentação da ética.
É certo que a educação começa no lar, por uma família bem constituída, bem formada. Depois vem a Igreja, com ensinamentos morais a serem praticados. Posteriormente, vem a escola primária, a secundária e, finalmente, a universidade. Os professores, no ambiente escolar devem ter a preocupação com o ensino, o desenvolvimento humano, com educação e ética.
A modernidade trouxe a mídia como fator decisivo na formação ético-moral das pessoas. A mídia é a divulgadora universal das noticias e sugere o que deve e o que não se deve fazer. Mostra, inclusive, as vantagens e os prejuízos do que se compra e do que se vende, até idéias.
É com o apoio da educação, da mídia, na saúde que se conseguirá quebrar preconceitos sobre o status social, cultural e econômico.
Nós médicos contribuímos para a segurança no trabalho, elaborando projetos de segurança.Nos contribuímos com o uso obrigatório do cinto de segurança, uso de capacete pelos condutores de moto, contribuímos na reformulação do Código Nacional de Trânsito, apesar de não haver fiscalização eficiente e nem mesmo punição adequada aos infratores. São bons exemplos para nossa sociedade que não sabe reivindicar seus direitos e não sabe de seus deveres.
A justiça é morosa e falha. Somos muito complicados. Esquecemos  que  para receber amor temos de saber receber e saber dar.  Esse deve ser nosso permanente objetivo, mas esquecemos que temos direitos e também deveres que devem ser assumidos conjuntamente. Devemos aprender a conviver a trabalhar, com justiça, ética e igualdade social.
Há sempre em nossas vidas questionamentos que nos inquietam ante as negligências que existem e persistem. A incompetência, igualmente as informações enganosas que visam tirar vantagens conduzem a processos anti-éticos.
Como médicos peritos, sempre levamos em consideração as informações e as hipóteses diagnósticas. A preocupação nossa sempre foi e será a justiça, mas não é muito fácil atender, pois devemos levar em conta tudo. Mesmo com informações duvidosas, jamais podemos humilhar nossos semelhantes, nossos pacientes.                
Justiça é para todos e não para os plagiadores do poder. Se todos pensarem assim a humanidade e a vida conviverá com fraternidade, qualidade e paz.

Albino Julio Sciesleski, Marisa Potiens Zilio

Humanidade, que droga?


“Há terapeutas que dizem àqueles que os procuram: “É preciso que você ame mais a você mesmo...” E o pobre se entrega, então, à impossível tarefa de se tornar objeto de amor para si mesmo. Esse foi o terrível erro de Narciso... Só há uma forma de amarmos a nós mesmos: quando perdemos a consciência de nós mesmos por estarmos totalmente cheios com a beleza do mundo.”(Rubem Alves)

Procuramos, desde a mais remota Antiguidade, algo que tivesse a propriedade de aliviar as dores, serenar as paixões, livrar-nos das angústias, dos medos, da insegurança para poder ter vida, alegria, felicidade e realização. A alegria e a realização pessoal estão ligadas ao fato de se ter uma mente privilegiada, capaz de poder prever, sem fantasias, o futuro, de se ter coragem de enfrentar as dificuldades da vida, as tristezas, o vazio ou nossas manias grandiosas sem necessitar buscar resultados doentios através das drogas.
A demonstração da vida nos ensinou que tanto ontem como hoje o ser humano sempre encontra justificativas no modo como procura sua felicidade, seu bem-estar, mesmo que seja pelo uso de drogas.
Muitas vezes, sufocamos a nossa memória (um ato bom, para libertar-nos de recordações), esquecemos as disputas doentias (como o ciúme, a inveja, os maus pensamentos), esquecemos a tristeza da vida ou exatamente o contrário, as euforias, que podem ser agravadas com a fantasia. Essa “sufocação” pode se dar pela atividade, pelo trabalho, pelos bons pensamentos ou até pelo uso de drogas, principalmente quando se trata de personalidades doentias.
Isso poderá ocorrer com qualquer pessoa que está sofrendo daquilo que chamaria de “ausência da felicidade”. A tristeza, assim como a alegria, é contagiante. Acontece que nossa “dor” transfere para o outro sensações igualmente angustiantes, o que leva ao desejo de atuar sobre essa dor, tanto em episódios depressivos como maníacos (euforia), o que poderá nos oferecer a droga como meio para nosso alívio. Quem já teve reza para não passar novamente pelo problema. Quem não teve não tem idéia da confusão mental que comanda os neurônios no período da depressão. A droga (lícita ou ilícita) alivia momentaneamente os sintomas, as dores, mas por tempo limitado, e pode levar ao hábito e, finalmente, ao vício, na busca fantasiosa da cura.
Com nossa experiência, podemos pensar que as distimias, o transtorno afetivo bipolar, que na sua maioria têm caráter hereditário, levam o indivíduo a buscar fantasiosamente os etílicos, a cocaína, a morfina, a maconha, o crack, os anestésicos e outros, cujo principal objetivo é aliviar as “dores”.
Experiências também nos mostram que, nos episódios agudos de intoxicação e dependência que conduzem o indivíduo à intervenção, após a desintoxicação, reaparecem os sintomas de depressão ou euforia, que levam à repetição do uso de drogas.
As drogas, necessariamente, não produzem dependência e, sim, a pessoa passa a ser dependente. Não devemos subestimar que a administração, com uso repetitivo e freqüente de produtos lícitos ou ilícitos, pode levar à dependência física, psíquica e química.
O que fazer? É a pergunta que fica pendente em nossa mente.
Um dos recursos terapêuticos é a psiquiatria. O tratamento psiquiátrico adequado permite diagnosticar se o indivíduo traz consigo desde o nascimento predisposição de caráter hereditário, desenvolventista e de personalidade.
A observação feita na clínica psiquiátrica é de que o hábito acaba em toxicomania, em dependência, pois toda a droga, no caso, é usada para compensar direta ou indiretamente a falta de prazeres na vida. Ainda temos de refletir que, com o tempo, as disputas doentias da humanidade, levando às guerras, envolvendo famílias, religiões e governos, estimulam o uso da droga. Desde 1950, aproximadamente, as “tramas diabólicas” permitiram aos traficantes o acesso de um percentual muito elevado de dependentes. Hoje, estamos condicionados pela dependência psíquica e física, que reforçadas pela dependência social. Todos nós utilizamos algum tipo de droga.
A análise profunda dos fatores que levam ao uso de drogas nos revela distúrbios de comportamento que se apresentam na mais tenra idade, sempre ligados a fatores familiares, escolares, profissionais, sociais. Volto a reforçar que a grande maioria tem cunho biológico comprovado em estudos mais recentes.
Outra referência necessária relaciona-se às “perdas” importantes, como da vida de pessoas próximas, perdas financeiras, doenças acometidas, traumas de acidentes pessoais ou coletivos, o estresse pós-traumático de formação reativa, que fazem com que os sintomas de depressão ou mania/euforia levem a buscar as drogas para aliviar os sintomas. Exemplo, a crise de 11 e setembro de 2001 nos Estados Unidos ou as queimadas nos campos da Europa em 2003, enfim, “batalhas” coletivas, com sintomas e reações também coletivas.
Estamos descrevendo problemas que afetam a sociedade de hoje numa proporção antes nunca vista. Estudos mostram os sérios comprometimentos individuais e sociais da depressão, levando a ser grande preocupação dos Estados Unidos, pelos dias de serviço perdidos, e também no mundo desenvolvido, pelas conseqüências sérias na saúde, no convívio social, nas questões legais, comprometendo profundamente as relações humanas grupais. As estatísticas ainda nos mostram que 5% das pessoas têm depressão e 10 a 20% vão sofrer depressão em algum momento de suas vidas. Proporcionalmente, cerca de 25% das mulheres e 10% dos homens vão sofrer depressão em algum momento da vida (fonte: depressão.org). No mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, em média 5% das crianças até 12 anos têm algum sintoma de depressão
As variações reativas, de estresse e disritmias apresentam, na depressão, sintomas de solidão, isolamento, inquietação, ansiedade, tristeza, desânimo, vontade de chorar, medo, pessimismo e idéias de suicídio ou o oposto: euforia, insônia, fala e gastos exagerados, com delírio de grandeza e influência. Esses sintomas e a cura podem ser amenizadas com a ajuda do próprio paciente, em primeiro lugar, e também com contribuição da família, da escola, da religião, da sociedade, que, trabalhando conjuntamente com a terapia psiquiátrica, estarão evitando a busca milagrosa das drogas (principalmente ilícitas).A vida não é fácil para ninguém. Parece pior ainda para o deprimido. Não adianta o sol lindo ultrapassando os limites da janela e dando bom dia, os olhos mal conseguem abrir. O gosto da boca é ruim, o telefone tocando incomoda, o banho é quase obrigação, os pensamentos estão doentes. Ele quer morrer, seu corpo quer sumir e sua mente lamenta cada segundo. Por que isso tudo não acaba? Por que as pessoas não o deixam em paz? Felicidade? Que felicidade? Solidão total. Não adianta demonstrarem preocupação, amor, simpatia, ele quer mesmo desaparecer. Não sabe para onde, não sabe se do outro lado vai ter paz, deseja ir. Os caminhos, todos eles, são malcriados e parecem sem paciência. Por que o olham assim? Por que não o entendem? Por que sim? Por que não? Sim por quê? Não por quê?
Finalmente, a batalha deve continuar com objetivos e idéias saudáveis, com a participação dos jovens e adultos nas decisões familiares, escolares, sociais e, mesmo, nacionais. Assim, as inconformidades passaram a ser exploradas de uma maneira objetiva para a melhoria da qualidade de vida, nossa grande meta humana.
É necessário devolver ao depressivo a capacidade de amar para que a razão da vida seja o seu maior prazer de viver.

O olho, para ser bom, não pode ver a si mesmo. O bom olho é transparente. O olho que se vê é cego. O corpo, para ser bom, não pode se sentir. O corpo que se sente é o corpo doente. O corpo doente, por se sentir, não pode ver, nem ouvir, nem cheirar, nem sentir o prazer do gosto e do toque. Amar é ter alegria na relação com um objeto. Nessa alegria eu perco a consciência de mim mesmo: estou imerso na alegria do objeto. O corpo amoroso é o corpo onde mora um jardim. (Rubem Alves)




Albino Julio Sciesleski, Marisa Potiens Zilio

Fobia Social



Fobia Social – Transtorno de Ansiedade Generalizada – é uma forma de ansiedade social grave, com freqüência incapacitante que acontece em aproximadamente 5% da população geral. Caracteriza-se pelo medo de ser observado e avaliado pelos outros. Diante disso, os indivíduos com fobia social temem fazer ou dizer algo que lhes cause constrangimento e humilhação, por isso evitam situações que possam causar indignações ou desconforto, isso acaba acarretando comprometimento do desempenho e da qualidade de vida. Em conseqüência, as pessoas que sofrem de Fobia Social são propensas a ter poucas amizades, mau relacionamento social, até abandono de escola, sentem dificuldades em se apresentar em público e rejeitam promoções dentre outros aspectos.
Desta forma, podem sentir-se desmoralizadas e depressivas, além de, por vezes, levar concomitantemente, a comorbidade do uso de drogas lícitas (álcool) e ilícitas (cocaína, maconha, crack...), que inicialmente servem como “remédio”, aliviando os sintomas mas elevam o consumo, levando ao hábito, ao vício e desenvolvendo a comorbidade psiquiátrica.
Os sintomas começam com medo, rubor do rosto e palpitações sempre relacionados a exposições públicas, como, por exemplo, falar e comer em público. Em seguida aparecem outros sintomas; tremores, suor excessivo, tensão, diarréia, inquietação, dificuldade de concentração e alteração do sono sempre ligadas às situações de exposições, seja em reuniões sociais ou falar com autoridades, professores, empregadores...
A Fobia Social era considerada doença rara, com outra visão epidemiológica, ou melhor dizendo, não tratadas ou vistas como doença, mas como inibições naturais e/ou timidez excessiva. Atualmente, na psiquiatria as doenças mais freqüentes são a depressão e a doença do pânico, após vêm outras como a epilepsia, os transtornos obsessivos compulsivos e a esquizofrenia.
A falta de reconhecimento da doença por parte dos clínicos é visível, o que leva à negligência da mesma e ao tratamento inadequado, fazendo uso de medicação imprópria na maioria dos casos.
O tratamento básico, após o diagnóstico estabelecido, se deve fazer com psicoterapia com uso de medicamentos. Sabemos que a psicoterapia está cada vez mais distante em função dos custos e atendimento pelos convênios e o paciente acaba não cumprindo com as exigências terapêuticas. O prognóstico é bom e a psicoterapia importante para ajudar a mudança dos pensamentos.
Quando a doença for crônica pode necessitar tratamento prolongado. Às vezes o paciente pode interromper o tratamento, inclusive por causa de sua profissão. Há também que se considerar que a medicação dá efeitos colaterais indesejados como dor de cabeça, náuseas vômitos, sudorese, boca seca, tremores, constipação, palpitações, também muitas vezes atingem a parte sexual e a diminuição da vontade sexual, mas tais situações são administradas com facilidade e desaparecem.
Concluímos que, junto ao diagnóstico, o paciente deve iniciar um tratamento psicoterápico e quando necessário, medicamentoso, até desaparecerem os sintomas. O tratamento só deve parar quando concluído para evitar recaídas, as quais devem ser novamente tratadas adequadamente, se ocorrerem.
As causas da Fobia Social podem ser biopsíquicas ou de formação reativa diante de fatos traumáticos. Nesta segunda hipótese, a terapia é indispensável, embora em ambos se recomende a medicação e a psicoterapia.

Exemplo de Caso:
Uma menina de 10 anos, inteligente, boa aluna, família composta de quatro pessoas (pai, mãe e dois filhos), aparentemente bem constituída e preocupados uns com os outros, repentinamente, começa a apresentar sintomas de Fobia Social. Isola-se e nega-se a ir à escola. Com a aproximação do horário de aula sente fortes cólicas intestinais, tem vômitos e diarreia  O fato existente ainda estava oculto, mas a sensibilidade infantil capta o existente-oculto e reage. Mais tarde, em terapia (usando dos princípios comportamentais) o fato se revela: o pai tinha uma amante, mudara seu comportamento. Na fantasia infantil, o medo do abandono e da agressão desenvolverá a doença e seus sintomas. A terapia durou um ano, com reforços periódicos. Após três meses, a criança passou a frequentar a escola novamente. Não usamos medicação neste caso.

Albino Julio Sciesleski
Marisa Potiens Zilio

DEPRESSÃO



                        Em junho de 2001, fomos ouvintes das maiores autoridades mundiais nos Estados Unidos, que abordaram assuntos ligados à globalização da economia, centralizados na melhoria da qualidade de vida da pessoa humana.
As discussões giraram em torno das idéias de uma globalização voraz, de uma competição, muitas vezes, desleal, desprovida de caráter social e, portanto, atingindo a competitividade na área profissional de modo nocivo à sociedade, atrelando todos a interesses de grupos econômicos e empresariais, inclusive profissões e profissionais liberais. Neste enfoque, já podemos concluir que a ética, a liberdade e a moral ficam comprometidas. Dessa forma, não nos surpreende que, aliado ao assunto da globalização, fosse abordado com maior ênfase o tema “Transtorno afetivo bipolar”, ou seja, a “depressão”, sob os enfoques de depressão de caráter hereditário, a de formação reativa e a depressão em desenvolvimento.
Para os profissionais da saúde que se dedicam à pesquisa e ao tratamento da doença, às dificuldades da pessoa depressiva e do seu entorno (família, trabalho), ficam mais claros a intensidade de sentimentos (de tristeza e de euforia), as oscilações de humor e a inadequação do comportamento. Para os leigos, ou melhor dizendo, para os familiares, fica claro que o que “está por vir” em forma de explosão é sempre uma incógnita, uma insegurança, um não-saber-por quê.
Globalização voraz x depressão. Desajuste do homem moderno que, na busca de si mesmo, encontrou na evolução científico-tecnológica respostas para o mundo, necessidades inimagináveis e um vazio imenso em si mesmo e no significado da vida. Talvez essa seja a razão que explica a doença do século: depressão.
Os sintomas são por nós conhecidos: tristeza, desânimo, vontade de chorar, insegurança, medo inexplicável, isolamento, desejo de ficar só, evitando o encontro em festas, encontros com a família e, quando mais grave, idéias pessimistas e suicidas, com o risco de cometer suicídio.
Como se trata de doença bipolar, acompanham-na sentimentos antagônicos, maníacos, ou seja, insônia, fala exagerada, inquietação, nervosismo, ansiedade, compulsividades, como compras exageradas (sem condições para), saídas sem rumo, falas de grandeza, falas sem significado, desconexas.
Voltando um pouco ao início da nossa fala neste artigo quando nos referíamos ao encontro do qual participamos, lembramos a abordagem feita sobre o extraordinário desenvolvimento por que passa o mundo em todas as áreas do conhecimento. Nesse campo, estão em primeiro lugar as pesquisas de saúde e saúde pública. Foram debatidas idéias de que, em 2020, teremos alcançado tal evolução que a maioria das doenças será controlada por vacinas, como, por exemplo, a Aids. Outras poderão ser monitoradas pela tecnologia, como a diabete e a hipertensão arterial. Há idéias fantásticas também de caráter ecológico, como o emprego de materiais degradáveis e o uso adequado de invólucros, hoje de vidro e de plástico, que seriam, ou melhor, serão substituídos por materiais confeccionados de resíduos agrícolas, tornando o continente e o conteúdo produtos com o mesmo ou igual tempo de validade.
Tais discussões nos empolgam, porém não foram menos calorosas as discussões sobre o consumo de água potável, em falta a partir de 2020, e sobre as doenças que necessitarão de atendimento durante a vida toda. As vacinas, as novas descobertas da genética, a evolução dos transplantes, os novos produtos químicos recuperadores resolveriam, em boa parte, e a medicina preventiva teria uma ênfase especial. Mas a medicina curativa, de acompanhamento contínuo também foi amplamente discutida, principalmente as doenças de caráter psíquico, como a depressão.
A depressão é considerada (o foi nesse encontro) a principal doença nos Estados Unidos não só do ponto de vista dos danos à pessoa, mas também dos danos à nação pelos dias de serviços perdidos, com prejuízos incalculáveis, seja pelo afastamento do trabalho, seja pelo tratamento exigido pela mesma.
A depressão leva a outras doenças, ou seja, às vezes, leva à procura do álcool, que funciona como remédio, depois, ao vício, à dependência, associando-se às drogas, ou, então, passa a somatizar, a colocar no corpo outras doenças, às vezes, intratáveis por terem sua origem no psiquismo humano.
As manias, que são parte da sintomatologia, às vezes são estados inebriantes de prazer e de euforia, mas que interferem nos relacionamentos, na produtividade. A pessoa depressiva faz um grande mal a si mesma. A doença maníaco-depressiva tem tratamento, tem medicação, no entanto o principal problema está na recusa dos pacientes em aceitar se tratar.
Há um estigma em relação à mesma, que conduz a pessoa a negá-la a si mesma e aos outros, principalmente por medo e insegurança. É uma doença que altera o estado de humor, os pensamentos, que destrói a fase racional. É orgânica, fisiológica nas suas origens, mas dá a impressão de ser psicológica.
Após o que demonstramos, chegamos à conclusão, com dados estatísticos, que realmente é a principal doença do mundo desenvolvido. No entanto, queremos reforçar que a maioria dos pacientes não procura os médicos e, quando o fazem, são por queixas somatizadas. Não procuram os especialistas, os psiquiatras, por medo, pelos estigmas antes mencionados.
Devemos ainda lembrar que o mais importante no tratamento é o ato do indivíduo, do paciente decidir se tratar. É a primeira evolução benéfica e produtiva. Chegar ao especialista com tal decisão, certamente é o primeiro grande passo para o controle (cura) da doença.
Uma boa entrevista dará ao paciente a segurança e a confiança necessárias, para, então, estender-se ao uso de psicofármacos. Os primeiros resultados começam a aparecer em aproximadamente oito dias. O tempo do tratamento será determinado pela gravidade da doença, podendo perdurar para sempre e nunca (ou quase nunca) por menos de um ano, às vezes continuado.
Voltamos a lembrar que os danos sociais e relacionais que a mesma provoca necessitam ser recuperados e redimensionados pela psicoterapia de sustentação para que o paciente possa compreender e administrar melhor os seus problemas e o seu próprio tratamento.
Podemos concluir que a recuperação está em primeiro lugar no paciente ao procurar o tratamento; em segundo, no terapeuta; em terceiro, no remédio e, por fim, na ajuda e na compreensão da família. Ninguém quer adoecer. A doença vem sem aviso prévio. Depende de todos (paciente, terapeuta e família), devolver a felicidade, a qualidade de vida, a busca de um meio psicossocial adequado e produtivo ao doente.

Albino Julio Sciesleski, Marisa Potiens Zilio

Que criança é esta?

Crianças com falta de atenção ou superativas têm o que se chama de transtorno de déficit de atenção / hiperatividade (TDAH), que nos faz recordar das queixas dos pais:
“ – Que mania é essa de deixar as portas abertas, as roupas pelo
chão, as luzes acesas?”
“ – Por que nunca presta atenção no que eu falo, fazendo com que
tenha que repetir?”
“ – Por que esquece sempre o que foi dito ou combinado?”
“ – Onde é mesmo que você está com a cabeça?”

Essas perguntas, que parecem ser freqüentes a todos os pais de crianças pequenas, na verdade não são tão comuns, acontecem em 3 a 9% das famílias que possuem filhos com TDAH.

No início, os pais pensam que a criança é agitada, às vezes, muito esperta. Não sabem esperar, tampouco ouvir. Dizem: “ – Quando percebemos..., já fez!”. Esse “já fez” não raramente é inadequado, ou melhor, cheio de imprecisões, mas necessariamente não pouco inteligente, pelo contrário TDAH não tem a ver com inteligência.

Depois de algum tempo, as preocupações parecem aumentar:
“ – Esta criança é muito impulsiva, não conseguimos educá-la! Não se senta direito à mesa, derruba quase tudo; está sempre desleixada e suas coisas são uma bagunça! É impossível lidar com ela! Os parentes?! Bem, já achamos que nossa visita não é tão agradável assim... Já não nos convidam para muita coisa... Na escola, então, é um problema. A professora diz que ela não presta atenção, não pára quieta, não obedece às ordens e incomoda os amiguinhos. Suas tarefas de casa e seu caderno são incompletos. Desse jeito não irá passar de ano!”.

Esse transtorno prejudica a criança não apenas na escola, onde apresenta níveis baixos de desempenho e disciplina, transtornos na leitura, repetições, mas também afeta sua família e todos os ambientes nos quais participa.

Na adolescência e na vida adulta (principalmente quando não se faz tratamento), resulta em mau desempenho e mediocridade no aproveitamento acadêmico e profissional. Adultos tendem a permanecer
em situação socioeconômica mais baixa, mudam constantemente de emprego, são advertidos e multados no trânsito e levam muito mal suas uniões, resultando em separações. Enfim, o índice de fracassos socioeconômicos e afetivos aumentam consideravelmente em indivíduos portadores desse transtorno.

O diagnóstico deve recorrer a uma entrevista cuidadosa, com observância relevante das queixas familiares; deve preencher os critérios (no mínimo seis) estabelecidos pelos códigos internacionais de doenças (DSM-IV). 

As crianças com desatenção apresentam os seguintes sintomas freqüentes:

a) falha em prestar atenção em detalhes, trabalhos ou outras tarefas por descuido;
b) dificuldade em manter a atenção em tarefas ou em atividades lúdicas;
c) parecem não ouvirem quando lhes falam diretamente;
d) não seguem instruções por completo, não concluem tarefas e afazeres no local de trabalho;
e) têm dificuldades em organizações quaisquer;
f) sempre evitam, rejeitam ou são relutantes em se envolver em tarefas que exijam esforço mental constante;
g) perdem coisas necessárias para tarefas ou atividades (por exemplo: brinquedos, lápis, livros e ferramentas);
h) distraem-se facilmente com estímulo externo;
i) têm esquecimento das atividades diárias.

Já as crianças com hiperatividade apresentam os seguintes sintomas freqüentes:

a) movimentam nervosamente as mãos ou os pés ou se contorcem no assento;
b) levantam-se na sala de aula ou em outras situações nas quais se espera que permaneçam sentadas;
c) correm para lá e para cá, descem e sobem excessivamente em situações nas quais isso é inapropriado (em adolescentes e adultos pode se limitar a sentimento subjetivos de inquietação);
d) têm dificuldade em jogar ou se envolver tranquilamente em atividades de lazer;
e) em todos os lugares estão de saída ou agem como movidos a motor;
f) falam muito.

Crianças impulsivas apresentam os seguintes sintomas:

a) respondem impulsivamente antes que as perguntas terminem;
b) têm dificuldade em esperar sua vez;
c) interrompem ou se intrometem com os outros (por exemplo: em conversas ou jogos).

Quando tratada, a criança diminui a ansiedade e a impulsividade, permanecendo mais atenta e adequada às situações. Suas relações sociais melhoram e passa a ser mais aceita. Porém o tratamento é longo
e sua eficácia, parcial.

A comorbidade (associação com outras doenças) é comum em portadores de TDAH. Há que considerar, também, que crianças e adultos não tratados têm dificuldades de conviver com seus próprios limites e com a rejeição, sendo levados a distúrbios emocionais, como depressão, baixa auto-estima, pânico. O uso de drogas lícitas e ilícitas é sempre frequente. O portador da doença busca meios para conter sua ansiedade,
impulsividade e até mesmo sua depressão.

Quanto ao tratamento para este transtorno, os psiquiatras, psicólogos, neuropediatras e psicopedagogos são profissionais habilitados para trabalhar nesses casos. Essa investigação requer, muitas vezes, uma boa anamnese, avaliação psicológica e/ou psiquiátrica, avaliação da inteligência e investigação do cérebro (tomografia, eletro), qualidade da respiração e do sono.

O tratamento implica uso de medicamentos (próprios para cada caso) e psicoterapia, que trabalhará focada na aprendizagem e na reconstrução do equilíbrio emocional (tanto para o paciente quanto para seus familiares). No caso da criança e do adolescente, o psicopedagogo deverá trabalhar também com a escola para que os prejuízos sejam cada vez menores.

Exemplo de caso

J. R. não tinha limites desde criança. Na escola, rendia pouco, para tristeza de sua mãe, uma excelente e dedicada professora. Foi morar com os tios, sendo que a tia trabalhava noutra cidade. Logo de início foram combinados códigos de mútua ajuda para que tarefas como guardar roupas, fechar portas e organizar agenda pudessem ser cumpridas. Foi criado um ambiente de aceitação e de achar engraçado quando acontecia algo, até mesmo indesejado, ao invés de recriminá-los.
Na adolescência, acabou envolvendo-se com drogas e com más companhias e a convivência familiar tornou-se impossível, com muitas implicâncias e discussões.
Bater o carro, derrubar pessoas dentro do ônibus, deixar a geladeira aberta ou espalhar suas roupas eram fatos encarados como comuns e toda a família ajudava a compensá-los.
Mais tarde, quando encaminhado para o psiquiatra, passou a fazer tratamento medicamentoso e psicoterápico. Atualmente, é um adulto feliz. Concluiu o curso superior e chefia a produção na empresa da família, sendo considerado um ótimo diretor. Um bom diagnóstico e um bom tratamento sempre são compensadores.

Albino Julio Sciesleski, Marisa Potiens Zilio

Crianças Precisam de Ajuda

Iniciar uma reflexão com este título parece contraditório, pois crianças sempre necessitam de ajuda, para crescer, para se desenvolver, para aprender, para se socializarem. Enfim, quanto menor a criança, maior a sua dependência. No entanto, queremos falar de crianças que necessitam de ajuda especial, crianças cujo comportamento preocupa, crianças com depressão.

Muitos devem se perguntar: é possível pensar em criança deprimida? Não é a infância a idade da alegria, do prazer, da despreocupação?

Em resposta a essas questões podemos dizer que a depressão é um mal silencioso que atinge tanto adultos como crianças. A depressãoinfantil vem sendo observada, diagnosticada e tratada nos últimos anos. A Organização Mundial da Saúde, em suas últimas estatísticas, mostra que até os 12 anos de idade, aproximadamente 3 a 4% das crianças convivem com sintomas depressivos leves, moderados e graves. A depressão infantil, quando não tratada, pode aparecer em outros momentos da vida e tornar-se mais complicada.

O transtorno depressivo infantil é um transtorno do humor capaz de comprometer o desenvolvimento da criança ou do adolescente e de interferir em seu processo de maturidade psicológica e social, chegando a causar problemas graves no lar, na escola. E, quando não percebido, pode inclusive levar ao suicídio.

As crianças, quando depressivas, não sabem o que realmente acontece com elas. A tendência é que tentem contornar as dificuldades de maneira imperceptível, até mesmo para elas. Nessa fase, o comportamento das crianças muda sutilmente. Os pais, por conviverem por mais tempo com os filhos, são os que notam essas mudanças de atitudes. Porém, apesar de tamanha gravidade da depressão na infância e na adolescência em relação à qualidade de vida, ao suicídio, às dificuldades na escola, no trabalho e no ajuste pessoal, esse quadro não tem sido devidamente valorizado por familiares e pediatras, nem adequadamente diagnosticado. Os pais, muitas vezes, não se aproximam para saber o que está acontecendo, sem repreender e sem prestar a devida atenção. Na escola, não raro, muitos professores não percebem ou não têm habilidade suficiente para notar e avaliar a mudança no comportamento do aluno.

Pais, professores e médicos devem ser os principais observadores das modificações comportamentais, queixas e sintomas que ocorrem com crianças e adolescentes, para poderem diferenciar o que é uma tristeza comum causada por episódios esporádicos e o que pode ser uma possível depressão. É preciso saber identificar as perdas, as tristezas, os choros, o sono e verificar se não existe histórico semelhante na família, já que para que se tenha um bom diagnóstico, deve-se observar os casos de reação, bem como os casos de hereditariedade.

Embora na maioria das crianças a sintomatologia da depressão seja atípica, algumas podem apresentar sintomas clássicos da depressão, tais como tristeza, ansiedade, expectativa pessimista, mudanças nos hábitos alimentares ou no sono, e, ainda, problemas físicos, como dores inespecíficas, fraqueza, tonturas, mal-estar geral, que não respondem ao tratamento médico habitual.

Na criança e no adolescente, a depressão, em sua forma atípica, esconde verdadeiros sentimentos depressivos sob uma máscara de irritabilidade, de agressividade, hiperatividade e rebeldia, com violação das regras sociais anteriormente aceitas, oposição à autoridade, preocupações e questionamentos de adultos. As crianças mais novas, devido à falta de habilidade para uma comunicação que demonstre seu verdadeiro estado emocional, também manifestam a depressão atípica, notadamente com hiperatividade.

Isso tudo pode ter início com a perda de interesse pelas atividades que habitualmente eram interessantes, manifestando-se como uma espécie de aborrecimento constante diante dos jogos, brincadeiras, esportes, passeios com amigos etc., além da apatia e redução significativa da atividade. Às vezes, pode haver tristeza. De forma complementar, aparece diminuição da atenção e da concentração, perda de confiança em si mesmo, sentimentos de inferioridade e baixa autoestima, idéias de culpa e inutilidade, tendência ao pessimismo, transtornos do sono e da alimentação e, dependendo da gravidade, ideação suicida.

Analisando agora especificamente o comportamento, a depressão nessas faixas etárias pode causar deterioração nas relações sociais, seja com familiares seja com amigos, perda de interesse por pessoas e isolamento. As alterações cognitivas da depressão infantil, principalmente relacionadas à atenção, raciocínio e memória, interferem sobremaneira no rendimento escolar.

Um dos males desse tipo de depressão é a superproteção, causada por superpais ou superavós, pessoas que exageram em zelar pelos filhos, excedendo-se em cuidados de todo tipo, não permitindo que a criança ou o adolescente desenvolva auto-imagem e auto-estima positivas.

O tratamento de uma criança ou adolescente com depressão precisa ser adequado e contar com a ajuda de todos os envolvidos no processo – familiares, amigos, professores – e, ainda, precisa ser constante. Começa por saber ouvir a criança ou o adolescente; acreditar nas suas reclamações, notar seus sintomas. Deve-se pedir o auxílio aos professores quanto a dúvidas de comportamento, por exemplo, já que muitas crianças ou adolescentes passam mais tempo com seus professores do que com os pais, e, assim, uma conversa pode esclarecer muitas preocupações.

Evidentemente, que para todos os casos, deve-se procurar também a ajuda de um profissional, um médico de confiança da família. É importante frisar que em casos preocupantes é preciso que a família fique unida, não agindo com superproteção ou autoritarismo, mas com práticas sociais, escolares, esportivas e de lazer, para aumentar a autoconfiança da criança, buscar uma terapia psicológica e/ou psiquiátrica e, se necessário, seguir a receita de medicação, sempre evitar recaídas. 

Não podemos esquecer que a depressão é a terceira doença do mundo desenvolvido e a que mais cresce no momento e que o bom contato e o bom relacionamento com afeto são fundamentais, tanto para evitar como para descobrir e tratar a depressão em crianças.

Exemplo de caso
Maria tinha nove anos de idade, estava na 4ª série do ensino fundamental. Era considerada uma aluna nota dez. Essa criança, porém, começou a sentir fortes dores de estômago, também sentia tonturas e vomitava toda vez que se aproximava do horário de ir à escola.
Após um mês, seus pais decidiram nos procurar. Após várias entrevistas com os pais (aparentemente bem estruturados, sendo a mãe professora e o pai agricultor), sentíamos que havia, ainda, algum segredo não revelado.
Maria foi avaliada em sessões semanais e, aos poucos, foi adquirindo confiança e se desnudando, porém continuava se negando a ir à escola.
Finalmente, o problema emergiu: o pai havia se envolvido com outra mulher.
O medo da perda do pai, o medo do problema ser focado em ambientes sociais, o medo de se expor, levou Maria a uma depressão somatizada. Na sua cabecinha, o segredo tinha que ser guardado. Ao desvelar o que a afligia, Maria sentiu um alívio, pois estava protagonizando a dor de todos, que agora podia ser dividida. O que era segredo, passou a ser problema e para problemas busca-se soluções. O medo e a vergonha foram substituídos pelo desejo de enfrentamento. Maria foi medicada por curto período. A família se organizou. Maria pôde voltar à escola.


Albino Júlio Sciesleski, Marisa Potiens Zilio

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Meu Livro

Caros leitores,

Começarei a postar os artigos que integram o meu livro Ser Humano: o desafio na vida e no trânsito.

Espero que os ajudem a tirar dúvidas acerca do assunto.

Até mais...