sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
ACIDENTES DE TRÂNSITO: RESPONSABILIDADE DE QUEM?
Em 1976,
quando apresentamos o trabalho “O comunicador social e a prevenção em acidentes
de tráfego”, dissemos que as tensões da vida moderna fizeram do automóvel um
instrumento de evasão, de libertação e de fuga. O indivíduo parece hoje ter
perdido sua identidade, massificado e massacrado pela sociedade de consumo, num
processo agravado pela globalização da economia. Com ela, ele se isola do
mundo, coloca-se contra ele, fica “machão” e ao volante de um carro, para
auto-afirmar-se na sua insegurança, atropela, mata e morre. A indústria
automobilística tem apresentado um avanço extraordinário, mas o carro continua
sendo uma arma de guerra nas mãos de irresponsáveis.
Os
aspectos psicossociais e médicos analisados na segurança do tráfego, na
recuperação das vítimas, dos parentes, com as conseqüências de tudo isso, dão o
reflexo do que vivemos cotidianamente. Pelo número de acidentes, suas
conseqüências e reflexos na sociedade, entendem-se os 31 mil óbitos, aproximadamente,
por ano no Brasil. Isso sem contar o número dos feridos com seqüelas graves,
que os levam a ficar em cadeiras de rodas ou a viver em fundos de quintais,
isolando-se ou abandonados socialmente.
O que
assusta é que a opinião pública se mantém apática, sem ser despertada
principalmente pela mídia, que só noticia as desgraças. Não se mostram os
defeitos e as correções necessárias, o modo como os cidadãos devem ser educados
e esclarecidos para o trânsito. No caso, “o silêncio não é de ouro”, mas é impróprio.
Os números absurdos causam menos impressão do que doenças conhecidas e temidas.
Basta que alguns casos de cólera suscitem emoção para que a região atingida
seja posta no index e evitada, ao passo que se tolera um número cada vez maior
de mortes nas ruas e nas estradas.
Nos
países e nas regiões desenvolvidas, os acidentes matam um número bem maior de
crianças e de adultos do que a tuberculose ou qualquer outra doença
infecto-contagiosa no momento. Salvo melhor juízo e estatística, entre as
causas de óbito, somente as doenças cardiovasculares e o câncer encontram-se à
frente dos acidentes de tráfego. Hoje, acima de 50% dos óbitos em crianças de
cinco a quatorze anos ocorrem no trânsito.
O
combate à opinião fatalista, segundo a qual os acidentes de trânsito são
inevitáveis e são obras de destino, é nossa função, apresentando inclusive
dados do êxito alcançado na indústria e na construção civil com o trabalho
preventivo e educativo para evitar os acidentes de trabalho. Os acidentes de
trânsito não constituem exceção, e o trabalho de prevenção deve dar ênfase à
seleção de motoristas, com bom exame médico e psicológico, bom treinamento e,
especialmente, educação, desde a pré-escola e em nível multidisciplinar. Da
pré-escola deveriam sair os primeiros ensinamentos de respeito à lei, aos
semáforos, aos cintos de segurança, aos capacetes, a como acomodar as crianças
nos veículos, como respeitar a faixa de segurança, enfim, um ensinamento básico
que servirá para a vida toda. Assim, o complexo homem x veículo x estrada x
meio, seria um assunto educacional globalizado. Determinando as causas que
provocam determinados tipos de acidentes, também se devem pôr em prática, com
rapidez e determinação, medidas eficazes para evitá-los.
No
passado, as estatísticas atribuíam a responsabilidade ao motorista por 70% dos
acidentes de trânsito; outros 30% eram dados à má conservação e má construção
das rodovias, má conservação do veículo e desinformação do pedestre. Hoje os
números mudaram, e o motorista praticamente é o responsável por 90% dos
acidentes, embora os outros 10% restantes também sejam de responsabilidade
indireta da pessoa humana, nos itens referidos à pessoa – veículo – estrada –
meio ambiente, inclusive com pedestres.
Diante
disso, do ponto de vista epidemiológico, acidente de tráfego é uma doença
crônica de discutíveis conhecimentos etiológicos, senão subjetivos, cuja
prevenção seria reprimir o tráfego de veículos, condição que não é aceita no
mundo de hoje. Mas os acidentes não acontecem e, sim, são provocados; por isso,
são inaceitáveis as conseqüências que provocam, traumáticas. É imprescindível
que se examinem os problemas e as soluções de eficácia comprovada, procurando,
ao mesmo tempo, atenuar as perspectivas futuras com base nas últimas
investigações. Admitimos que o homem é acionado por dois impulsos antagônicos:
“o impulso de vida e o impulso de morte”. O acidente é a explosão do impulso de
morte, e o indivíduo procura-o de modo mais disfarçado, mais subjetivo
possível, de maneira que ele próprio não o percebe. O uso do cinto de segurança
em países desenvolvidos tem a freqüência entre 75 a 90%, com que se reduz em
30% o número de mortes, mutilados e inválidos.
Diante
do exposto, concluímos que a educação para a prevenção de acidentes é a
principal meta. Os exames de motorista devem merecer cuidados especiais,
avaliando-se a sua personalidade e o seu comportamento, que podem repercutir
concomitantemente a outros sintomas originários de qualquer mal coadjuvante,
como a ansiedade, a depressão, o etilismo, a drogadicção, a epilepsia ou
problemas mentais, entre outros.
Na
realidade, a impunidade dos condutores faz da justiça algo comprometedor. Por
exemplo, qual é a pena para condutores que cometem mortes ou lesões graves, com
seqüela de invalidez, quando andam em velocidade abusiva ou alcoolizados? Qual
seria a pena para o indivíduo que mata e atropela intencionalmente? Modificar a
legislação e a aplicação de penalidades faz-se urgente e necessário. Raramente
um crime de trânsito é considerado doloso porque, mesmo dirigindo imprudente ou
negligentemente, é difícil provar que o indivíduo teve o objetivo de matar ou
de ferir alguém. Urge que se editem leis específicas de contravenções,
específicas para punir os “rachas” e outras atitudes de violência no trânsito.
Qual a pena se matar alguém em assalto ou num bar? Cadeia. Julgamos que a
justiça e a CUT têm de mudar para acabar com a impunidade e impedir que o
motorista continue agredindo a si mesmo e à sociedade.
Em
reunião da Associação Médica Brasileira, ocorrida em 25 de março de 1983, em
Goiânia, depois de longa luta por nós desenvolvida para a criação da
especialidade de medicina do tráfego, pelo uso obrigatório do cinto de
segurança nos automóveis e do uso do capacete pelos motoqueiros, obtivemos
resultados compensadores.
O
trabalho efetuado por 16 anos foi baseado no número de mortes, de mutilados e
de inválidos no trânsito, cuja idade preocupante fica entre 18 e 30 anos, a
mais produtiva da pessoa humana para si e para a nação. Desta forma, mantivemos
a nossa dedicação à medicina preventiva, assistencial e legal, baseados no
transporte aéreo, marítimo e terrestre.
A
indústria automobilística tem nos apresentado um avanço técnico inimaginável.
Máquinas potentes são armas de guerra nas mãos de irresponsáveis. A motocicleta,
por exemplo que ocupa um espaço três vezes menor que o automóvel, mais
econômica, mais ágil, mais veloz, circula em espaços menores, muitas vezes
impróprios, facilita a locomoção e a execução de trabalhos, como o dos
“motoboys”, por exemplo. Mas, constitui grande risco da maneira como é usada,
pois não têm proteção. Estatísticas comprovam que as motocicletas causam quatro
vezes mais acidentes, atingindo os membros inferiores, os membros superiores e
levando a fraturas no plexo braquial, tão importante na fase da sobrevida, do
trabalho e aos recursos humanos, em grande percentual, a cabeça, com trauma
cranioencefálico, que causa a morte, entretanto este último reduz em 67% quando
usado o capacete.
Há
maneiras de proteção que poderiam ajudar o motoqueiro além do uso do capacete,
como roupas especiais (coloridas), luvas, farol aceso, não circular entre os
carros, usar sempre a direita do tráfego, usar a moto de acordo com seu tipo
físico, fazer revisão da moto regularmente, não usar pneus carecas, evitar a
chuva, cansaço, estresse, álcool e psicotrópicos que diminuem a atenção.
Atualmente,
a maioria dos acidentes se dá com jovens do sexo masculino, nos primeiros anos.
Na França, constatou-se que 44% dos acidentes ocorrem com menos de 1.000km
rodados. Por isso, o treinamento é importante, assim como o aquecimento do
corpo antes de sair. As arrancadas bruscas nas saídas ou nas passagens no
semáforo, colidindo com atrasados ou adiantados, podem ser evitadas com os
rigores da lei.
A moto é
um meio de locomoção eficiente, ágil, econômico, mas perigoso quando não se
respeitam as regras básicas, que devem ser dadas nas moto-escolas, em número
ineficiente e, quando usada deficientemente na educação, sem treinamento
adequado do motoqueiro, que muitas vezes leva um passageiro totalmente
despreparado, desprotegido, deseducado, aumentando o risco de ambos.
O exame
de motorista e motociclista, portanto, deve ser feito com extrema
responsabilidade. Se necessário, deve-se pedir exames complementares, como
estudo da personalidade e outros, como salvaguarda na prevenção de acidentes de
trânsito, que é o objetivo de toda a sociedade humana, na melhoria da qualidade
de vida.
Médico Psiquiatra
Paranoia
No dicionário, paranoia é
um estado mental caracterizado por lesão parcial da inteligência e da
sensibilidade e, no qual, o indivíduo se supõe perseguido, incompreendido e
superior a seu meio. A paranoia também pode ser definida como uma doença psiquiátrica
cuja característica central é um delírio bem organizado; o termo pode ser
utilizado para designar, vulgarmente, a mania da perseguição. Ainda, a paranoia é descrita como um termo utilizado por especialistas em saúde mental para
descrever desconfiança ou suspeita altamente exagerada ou injustificada.
Entretanto, diferente de outros estados psicóticos, apesar dos delírios, há uma
curiosa manutenção da clareza.
As doenças mentais e/ou as
emocionais, que podem atingir pessoas de quaisquer idades, se associam, muitas
vezes, a queixas clínicas e/ou comportamentais socialmente aceitas, pois se
revestem de necessidades, justificativas, explicações e atitudes socialmente
aceitas. Um fator emocional pode causar ou agravar comportamentos antes
compensados (dentro de limites aceitáveis) ou mesmo gerar doenças físicas
(orgânicas) de difícil diagnóstico.
Segundo o Manual
Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais- DSM-4, 1995, os fatores
psicológicos afetam adversamente essa condição, influenciando no curso do
tratamento (...), exacerbando ansiedade, por exemplo. Assim, pode-se dizer que
para todo transtorno mental existe causa e conseqüência que podem ser
biológicas (do corpo), sociológicas (do comportamento relacional) ou
psicológicas (envolvendo questões do afeto primário do indivíduo).
Assim, podemos classificar
a paranoia em três categorias distintas: Distúrbio Paranoide de Personalidade,
Distúrbio Delirante Paranoide e Esquizofrenia Paranoide.
O Distúrbio Paranoide de
Personalidade inclui sentimentos de desconfiança (o mundo é ameaçador),
sensibilidade exacerbada, com comportamento excessivo de defesa e hostilidade,
frieza nas relações com medo de envolvimento.
No Distúrbio Delirante Paranoide é marcante um tipo de delírio como persecutório (a pessoa se sente
perseguida e ameaçada); outro tipo, é o delírio do ciúme (perda da confiança
por ciúmes da pessoa com quem está envolvida emocionalmente); também pode
ocorrer uma “fixação romântica” ou delírios eróticos, como acreditar que recebe
presentes ou telefonemas de admiradores ocultos; podem ocorrer ainda delírios
de grandeza e hipocondria (manias de doença). As pessoas portadoras de
Distúrbio Delirante Paranoide são pessoas que se irritam com facilidade e não
raramente provocam conflitos em seus relacionamentos.
Na Esquizofrenia Paranoide os delírios podem ser extremamente bizarros (como, por exemplo, ser engolido
por teias de aranha) e pouco a pouco a pessoa perde o contato com a realidade,
o pensamento torna-se desorganizado e confuso. O paciente pode apresentar desconfiança,
medo, insônia, acha que “falam mal dele”,ou que pode “tudo”, ouve vozes, fala
muito, tem delírio de auto-referência e grandeza.
As causas da paranoia em
geral, podem ser muitas, porém, neste artigo, especificamente queremos tratar de
uma em especial: o estresse ou a tensão exagerada provocada por um mundo onde,
de um lado, a segurança e, de outro, as cobranças estão tornando a vida
difícil, estressante e, o que é pior, levando à desconfiança e à insegurança.
Hoje, o nível de violência
pode ser comparado aos provocados pelas guerras. Como não delirar frente a
fatos concretos de assaltos, balas perdidas, traições? Como saber distinguir
ações carregadas de boas intenções daquelas que tentam nos emaranhar em “armadilhas”,
nos “passar para trás”, aproveitar de nossa boa vontade e até mesmo de nossa
inocência? Criaram-se idéias pouco éticas de convivências como: “O mundo é dos
espertos!” ou “Cada um que se vire!”
Estamos nos desagregando
como sociedade (que está esquizofrênica) e como indivíduos (com nossos
distúrbios delirantes). Estamos comprometidos também com os delírios dos grupos
e esta paranoia é bem mais difícil de superar, pois, no grupo, um reforça o
delírio do outro, fazendo-o parecer real e verdadeiro. Constata-se que muitos
preferem o delírio à realidade, entregando-se às drogas, por exemplo, ou
buscando justificativas (projetivas) para suas fantasias delirantes.
Solidariedade, confiança,
saúde mental, harmonia, despreocupação, prazer, segurança, amor, compreensão,
perdão... onde estão vocês?
Como diz Shakespeare, um
dia a gente aprende...
Um dia você aprende...Depois de algum tempo você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, que companhia nem sempre significa segurança, e começa a aprender que beijos não são contratos, e que presentes não são promessas.Começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança; aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo, e aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... Aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai ferí-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais, e descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida; aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias, e o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida, e que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. ..
Albino Julio Sciesleski
Médico Psiquiatra
Marisa Potiens Zílio
Psicopedagoga
Vingança
Que sentimento é este que faz
tanto mal quanto àquele que desejamos a outros? Que rouba tempo, sono e
criatividade? Que gera culpa, insatisfação e sentimento de impotência?
Embora seja este um dos
sentimentos mais freqüentes do ser humano, são raros os estudos sobre a
vingança.
No dicionário encontramos
dois significados da palavra vingança. São significados controversos e contraditórios,
porém são próximos se considerarmos do ponto de vista da análise psicológica:
a) vingança como desforra ou cobrança; b) vingança de vingar, dar certo, dar
frutos, produzir.
Vingança consiste na
retaliação contra uma pessoa ou grupo em resposta a algo que foi percebido ou
sentido como prejudicial. Embora muitos aspectos da vingança possam lembrar o
conceito de igualar as coisas, na verdade a vingança em geral tem um objetivo
mais destrutivo do que construtivo. Quem busca vingança deseja forçar o outro
lado a passar pelo que passou e/ou garantir que não seja capaz de repetir a
ação nunca mais.
Sobre as bases morais, psicológicas e culturais da
vingança a filósofa Martha Nussbaum[1]
escreveu:
"O senso primitivo
do justo — notadamente constante de diversas culturas antigas a instituições
modernas . . . — começa com a noção de que a vida humana
. . . é uma coisa vulnerável, uma coisa que pode ser invadida,
ferida, violada de diversas maneiras pelas ações de outros. Para esta
penetração, a única cura que parece apropriada é a contrainvasão, igualmente
deliberada, igualmente grave. E para equilibrar a balança verdadeiramente, a
retribuição deve ser exatamente, estritamente proporcional à violação original.
Ela difere da ação original apenas na seqüência temporal e no fato de que é a
sua resposta em vez da ação original — um fato freqüentemente obscurecido se há
uma longa seqüência de ações e contra-ações".
Como
a vingança se desencadeia do ponto de vista psicológico?
Quando algo perturbador
acontece, gerando sofrimento ao indivíduo, a sua imaturidade psicológica se
sente ameaçada. É algo tão forte, que mesmo raciocinando conscientemente, não
consegue se desvincular das manifestações desconhecidas que traz, armazenadas
em seu inconsciente, exigindo reparação, desforra, e mesmo a aniquilação do seu
opositor.
Inicia-se,
então, uma acirrada disputa entre o seu lado racional, procurando resistir a
esse tipo de atitude, por identificar essa falha do caráter, e o seu lado
irracional, revestido de toda sua bagagem sombria de manifestações inesperadas e
inconseqüentes, desconhecidas da personalidade do indivíduo.
Esses
impulsos doentios emergem de áreas desconhecidas do ego, e induzem o indivíduo
a um trabalho de desenvolvimento perseverante de odiosidade, instaurando-lhe no
mais profundo de seu ser a revolta e o desconforto ante o opositor, que se lhe
apresenta como um perigo constante para sua segurança. Entretanto, nem sempre a
figura do opositor é real, mas sim fruto da imaginação e do inconsciente.
O fenômeno ocorre tanto
individualmente como em grupo. No individuo, esse comportamento provoca o
perverso mecanismo conflitivo, que o leva ao desespero, e mesmo quando o outro
já não mais lhe representa perigo algum, mesmo depois de se render ou ser
aniquilado, os efeitos desastrosos da vingança não desaparecem frustrando a
quem aparentemente estaria vitorioso. No grupo, como as nações, por exemplo,
este fenômeno provoca o ensejo do desencadeamento das guerras.
Invariavelmente
neurótico, o enfermo indivíduo que assim age, vitimado quase sempre pela
repressão sexual infantil ou dominado pela sede do poder e da ambição, vive a
competir com os demais, os quais passa a invejar por se encontrarem em melhores
situações psicológicas que a dele.
Como classificar o sentimento de
vingança?
A
vingança é um transtorno neurótico, torpe, que liberta do inconsciente forças
desordenadas sob o estímulo do “aniquilamento” do inimigo.
Curioso
é notar, que o inimigo não é aquele que se torna combatido, mas sim o seu
próprio “eu” que transfere para o outro, em fenômeno de projeção, o que guarda
internamente. Ao armar-se de calúnia e de outros mecanismos de perseguição,
contra aquele a quem odeia, está realizando uma luta inconsciente contra si
mesmo, uma vez que está apenas projetando o lado escuro e sombrio da sua
personalidade que lhe mantém preso a ignorância.
Fixa-se
no adversário com implacável disposição de conseguir a sua extinção, que
enganosamente, para ele dependerá sua liberdade a partir desse momento.
Além da inferioridade moral que tipifica o
vingador, o seu primarismo emocional elabora razões ponderadas que são
arquitetadas pela mente em desalinho, para justificar o prosseguimento de tal
façanha. Em outras oportunidades, sua inferioridade se projeta e não se sente
devidamente capaz de competir contra valores significativos, os quais
invariavelmente não possui.
Se por acaso, tiver a
oportunidade de se harmonizar com o inimigo, não o perdoa interiormente –
embora possa ser na verdade, o maior merecedor de perdão –, ruminando o que
considera sua derrota até encontrar novos argumentos para dar prosseguimento à
sanha doentia de vingança, pela sua libido atormentada.
Aqueles que se apóiam em
mecanismos vingativos foram vítimas de repressão na infância ou juventude. Sentiram-se
desprezados pelo grupo social e transferem agora suas frustrações para
quaisquer outros, desde que isto lhes transformem em pessoas de poder ou
ambiciosos dirigentes de “qualquer coisa”, em que a personalidade esquizóide,
paranóide, maneirosa, falsamente humilde ou pretensiosamente dominadora possa a
ser homenageada.
Conseqüências
prejudiciais da vingança:
Os
indivíduos que assim procedem, levados pelo sentimento desequilibrado e doentio
da vingança, estarão sempre sujeitos a desviar-se de seus objetivos de vida ou
até virem a ter crises psicossomáticas podendo transformarem-se personalidades
psicopatas perigosas.
Reciprocidade
ou vingança?
Quando perguntado se
perdoava a quem o tinha ofendido, Gandhi respondeu: “Mas ninguém me ofendeu”. A
frase de Gandhi nos aponta para uma mente sadia, que é capaz de perdoar ou de
legitimar suas intenções, sem que opositores lhes pareçam inimigos ou pessoas a
serem combatidas.
Se agirmos em represália,
os nossos direitos mesmo que legitimados por termos jurídicos, perdem sua
legalidade. Devolver na mesma moeda não constrói nem transforma a natureza
humana.
As pessoas podem viver em
harmonia, desde que respeitem suas divergências, suas diferenças e seus
direitos. Também é importante saber que sentimentos nascem no mais íntimo do
nosso ser e como já dito neste artigo, nem sempre reconhecidos por nós. Para
isto, existem as terapias, o diálogo, a busca da espiritualidade e tantos
outros mecanismos que não apenas farão bem à pessoa como a toda a humanidade.
Albino Julio Sciesleski
Médico Psiquiatra
Marisa Potiens Zílio
Psicopedagoga
Albino Julio Sciesleski
Médico Psiquiatra
Marisa Potiens Zílio
Psicopedagoga
[1] Martha
Nussbaum é
professora de Direito e Ética na Universidade de Chicago. É uma das mais
inovadoras e influentes vozes do cenário filosófico atual.
Prefácio
Tornamo-nos amigos durante a sua residência no Hospital das Clínicas de S.Paulo, no Departamento de Neuropsiquiatria, em 1971, quando eu havia recém empossado como assistente daquele departamento.
Sua fala com típico sotaque gaúcho, porém rápida e entusiasmada no que fazia chamou-me a atenção. Recém chegado de Pelotas, Dr. Albino era um jovem muito interessado em aprender, e principalmente
em trabalhar. Onde havia pessoas, lá estava ele, conversando, agitando, se virando em múltiplas funções.
O interesse pelo trânsito foi outra característica dele, que logo conquistou a minha simpatia. Nenhum dos meus colegas de turma, nem meus dos meus contemporâneos havia se interessado por esta área. Eu achava exótica a sua escolha.
Mas o seu gosto, talento, esforço e empenho fizeram-no vencedor na Medicina do Trânsito. Para começar, Dr. Albino foi o fundador e presidente nas três primeiras gestões da Associação Brasileira de Medicina de Trânsito. Isso há 30 anos atrás. Conhecedor que eu era destas suas características empreendedoras, sabia que ele deveria estar envolvido em algum outro projeto relacionado ao trânsito. Foi quando o encontrei em 2007 em Passo Fundo, onde eu estivera para proferir uma palestra na Faculdade ... (favor completar o nome da faculdade, a data, o título da palestra, o nome e cargo da sua mulher). Ainda, o Dr. Albino lembrou-se que nos encontramos há alguns anos atrás no aeroporto de Congonhas e que ele tomou a iniciativa de me perguntar se eu me lembrava dele. Não só confirmei que sim mas também lhe disse em alto em bom tom: “Você não mudou nada, Albino!” Como poderia eu esquecer-me dele? Como esses encontros de aeroporto, um chegando, outro partindo, o nosso foi também muito rápido e prometemo-nos entrar em contato.
Em Passo Fundo comprometi-me a escrever o prefácio do seu livro que ora apresento a você.
Você que pegou neste livro, que leu, ou que recebeu uma recomendação de lê-lo, já deve ter percebido da sua importância.
Aponte-me alguma pessoa física, social e mentalmente saudável que esteja totalmente livre do trânsito. Acredito que não exista.
Pergunte a qualquer pessoa se já sofreu ou causou algum acidente de trânsito. Poucos confessam mas a maioria vai logo justificando que a culpa é do outro, que ele fez o melhor possível, mas não teve jeito
de escapar etc.
Dificilmente você vai encontrar também alguém que não tenha escapado por pouco de ser atropelado, atingido, de um acidente que aconteceu em sua frente, que poderia ter sido ele a vítima.
Uma das características dos acidentes de trânsito é o responsável sentir-se vítima de outros motoristas. De vilão do trânsito passa a se justificar como vítima, para eximir-se da culpa. Nem um bêbado admite
estar embriagado num volante.
Este livro Ser humano: o desafio nos elucida e nos ajuda a ter novos procedimentos para que não sejamos de fato vítimas e muito menos algozes do trânsito.
Depois de ler este livro, você vai concluir que é um milagre você estar vivo no trânsito. Quem tem consciência deste perigo, o de arriscar-se a qualquer momento de morrer ou de matar alguém, será, com
certeza, um bom sobrevivente.
Ninguém pode garantir que aquele que lhe fechou a frente, fez uma ultrapassagem irregular, não usa o cinto de segurança e abusou da potência e velocidade do carro está com saúde psíquica suficientemente conservada para dirigir defensivamente.
São tantas as patologias que comprometem as pessoas que lhes tiram a faculdade de dirigir que nos obriga a ficar ainda mais atentos do que já somos.
Para enumerar alguns motoristas que nos cercam, seja de ônibus, caminhões, carros, motos, bicicletas, carroças, e para enumerar os pedestres que andam soltos pelas ruas, avenidas e estradas, cito algumas
situações de risco das quais o Dr. Albino trabalha neste livro: Desatentos, hiperativos, suicidas, prepotentes, onipotentes, envelhecidos, epiléticos, depressivos, esquizofrênicos, fóbicos, compulsivos, alcoólatras, drogados, ousados, fugitivos, apressados, criminosos, intolerantes, criminosos, violentos, paranoicos abusados, bipolares, maníacos, panicosos, infartantes, desmaiantes, possuídos pelo ciúmes, cegos de
ódio etc.
Dr. Albino nos explica o problema, nos orienta para procedimentos adequados e lança uma luz no seu poema final:
O que está feito, está feito.
Mas tudo pode começar de novo.Pois tu podes com o último alento.
Recomendo-lhe a leitura deste livro, não só a você, que já se cuida, mas também aos seus amigos, parentes e filhos. Se todos se cuidarem, teremos vida mais saudável, menos acidentes de trânsito e melhor qualidade de vida.
Içami Tiba
(Psiquiatra e escritor)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
ALZHEIMER E DEMÊNCIA
Nada mais difícil, para os que
estão envelhecendo, do que pensar e, até mesmo encarar os problemas de saúde
decorrentes das perdas naturais da própria idade. Mas ainda mais difícil é
saber da possibilidade das perdas mentais e das dificuldades decorrentes:
pessoais, familiares, ambientais, sociais.
As doenças que dizem respeito aos
pacientes idosos podem ser diagnosticadas como demências frontotemporal,
Alzhaeimer e demência vascular, quais são os sintomas destas doenças? Como é
quando elas aparecem? Qual a gravidade? Tem cura? Tem tratamento? Como a
família deve agir? São perguntas que fazemos. Quando temos algum
esclarecimento, ou porque estudamos, ou porque convivemos, com casos
semelhantes, tentamos organizar o nosso futuro, para que se tal coisa nos
acontecer, não venha a ser peso, estorvo para nossa família. Tal preocupação é
real, é muito difícil sofrer e lidar com a demência (depressões, ansiedade,
ausência de comunicação... etc.).
Os sintomas mais prevalentes nos casos demências: perda de memória, choro
fácil, labilidade emocional, insônia, crises de agitação agudas com agressividade
física, desconforto, sensações físicas de dor, calor sem causa existente,
condutas anti-sociais, desinibidas e sem censura, sem crítica de
relacionamento.
Nem sempre os exames físicos (eletro, encefalograma, tomografia
computadorizada) detectam alguma alteração, embora sejam eficazes nos casos de
demência vascular, mas uma avaliação neuropsicológica pode auxiliar psiquiatra
e psicóloga na identificação do problema, bem como a ressonância magnética do
cérebro poderá detectar existência de comportamento.
Lembro de uma senhora ao iniciar o processo demência e, provavelmente com
percepção de que algo estava lhe acontecendo, demonstrando sofrimento, escolheu
uma frase, com a qual respondia todo e qualquer questionamento que lhe fosse
feito - “Cada um com a sua”.
Aos poucos foi perdendo a memória
o reconhecimento de lugares e pessoas, controle dos esfíncteres. Comia se lhe
alcançassem o alimento, dormia se lhe colocassem na cama, não reconhecia
pessoas, lugares... Enfim, sua vida foi sendo de total dependência, até que
nunca mais saiu de seu leito (por mais de 5 anos) até vir a falecer.
A repetição de frases muitas vezes também se torna um sintoma. (a pessoa
apresenta ecolalia).
Não estamos preocupados neste artigo em separar os sintomas das demências
fronto-temporais, do Alzheimer ou demências vasculares. Nosso objetivo é
repassar informações para que possamos nos cuidar melhor e buscar em tempo rápido
soluções. Na verdade ainda não existem tratamentos preventivos significativos,
mas tratamentos que diminuem os sintomas e que permitem melhor qualidade de
vida. Também não podemos descartar os novos estudos que vem sendo realizados,
os avanços que poderão em futuro breve trazer soluções para estes problemas.
Mas todo tipo de demência é um processo degenerativo que tende ao agravamento
gradativo da doença.
Quais os procedimentos?
Não importa o diagnóstico sobre o
tipo de demência, alguns procedimentos são comuns a qualquer caso. O primeiro
aspecto a ser observado diz respeito às perdas e alterações. Perdas cognitivas
(de memória, confusão de idéias), comportamentos agressivos, alienados, sem
censura ou autocrítica.
A partir desta avaliação inicial, deve-se orientar a família e o paciente
como manejar e melhorar a convivência. Quais as expectativas que devem ter o
que esperar o que não podem exigir. Enfim como reconstruir todo o ambiente
físico e emocional.
Paralelamente o médico irá definir sobre a melhor medicação e orientação
e trabalho como a família deverão observar os efeitos da mesma sobre os
sintomas mais agudos e prevalentes.
Todas as condutas são feitas no sentido de melhorar a qualidade de vida
seja para o paciente, seja para a família ou para os cuida dores.
Na maioria dos casos os doentes não possuem condições para continuar
gerenciando suas vidas e necessitam de “cuidadores” permanentes, principal na
evolução e agravo.
As perdas cognitivas dificultam o paciente na comunicação de suas necessidades
e desejos (desconforto, dores, fome) levando-o a agitação, inquietação e
ansiedade, dificultam na execução das tarefas (vestir, comer...), dificultam
suas relações. Portanto, neste momento, não podemos negar o uso de medicamentos
para o melhor controle dos sintomas das demências. Às vezes concomitantes
depressões quando sente os sintomas.
É importante, também lembrar que quando confinado ao lar, alguém (marido,
mulher, filho, neto) terá que abrir mão de sua vida própria para dispender os
cuidados necessários. As famílias ricas recorrem a enfermeiras, por turnos. Mas
não é esta a realidade da maioria, alguém tem que se dedicar ou a solução são
os asilos ou casas geriátricas.
O médico (psiquiatra, neurologista,
geriatra) é fundamental na orientação do tratamento dos sintomas, mas também na
orientação da família. Doenças demenciais comprometem e impedem a qualidade da
mesma, para todos.
Acreditamos que em futuro breve a ciência irá descobrir como prevenir ou
até mesmo curar este mal que tanto sofrimento gera. Não bastam melhores
medicamentos controladores. Nossa expectativa é para com a cura que esperamos
seja descoberta brevemente.
Terapias alternativas tem sido de grande eficácia tanto no tratamento,
quanto na prevenção, como a musica-terapia, terapia ocupacional. Pesquisas
revelam que entre as pessoas de maior estudo os sintomas custam a aparecer,
mais depois se aceleram, comparadas às pessoas de menos estudo.
Isto mostra que o “exercício” cerebral (leitura, jogos) podem ser grandes
aliados no retardamento da doença (dançar, fazer caminhadas, executar tarefas).
Muitos, quando chegam ao consultório, vêm com queixas de depressão (e
assim são tratados), na verdade eles estão seguindo aos sintomas que percebem
ter como a perda de memória, por exemplo, e se entristecem, deprimem. No início
o diagnóstico é sempre difícil.
Embora as demências sejam doenças senis (do envelhecimento) existe a
doença de Pic, rara que se trata da demência precoce pré-senil.
Com o aumento dos anos de vida, as doenças demenciais tenderão a ser mais
presentes. Alguns países desenvolvidos estão criando programas especiais em
clínicas bem estruturadas para atendimento de idosos e de idosas portadores de
demências com assistência médica (interde e mult) com lazer.
A mente tem que ser exercitada, assim como o corpo, depende de nós. Como
disse Kennedy “não adianta acrescentar anos a vida, é necessário acrescentar
vida os anos”.
Albino Julio Sciesleski
Marisa Potiens Zilio
Envelhecimento Humano
O título remete às publicações realizadas por professores da UPF, os quais há muito e, em várias áreas do conhecimento, vêm se dedicando ao assunto. Hoje, já são várias as publicações científicas, pretensão esta que não tem este artigo, que deseja ser apenas uma reflexão pessoal baseada nas próprias vivências e, em confidências feitas em nossos consultórios.
Dessa forma, várias são as questões que nos vêm à mente e mexem com nossos sentimentos quando pensamos em envelhecimento humano, tais como a questão da longevidade, da qualidade de vida, da saúde,
do atendimento, da garantia da dignidade e da autonomia. Um dos olhares que mais nos chama a atenção é o fato de que, inversamente à criança, que cresce, aprende, adquire força, competência e independência, o
ser que envelhece vai perdendo essas capacidades, e, por mais que se queira retardar, é impossível, pois são perdas inerentes à própria vida.
Outro olhar que nos desafia é o da ausência de um convívio, ou talvez, o das grandes transformações na cultura e no comportamento familiar, ou seja, que na atualidade, não está mais mantendo a convivência
nem a responsabilidade que uns devem ter sobre os outros do mesmo grupo familiar. Será uma questão de cultura? Exigências da vida moderna? Mudanças nas relações afetivas e sociais? Sejam quais forem as respostas, podemos, a olhos vistos, perceber os que ainda dependem (crianças) e/ou os que estão voltando a depender (velhos) estão à mercê da caridade humana.
Sem ser saudosista, lembro que o lugar principal à mesa, a poltrona diante da TV, o melhor quarto, o melhor espaço, a comida especial eram oferecidos aos nossos avós, cultura esta ainda presente no mundo
oriental. Hoje, raramente temos tempo para uma boa conversa, um bom carinho. O que o Estado faz ou como ele está se organizando para proporcionar uma velhice digna?
Que tipo de ações a sociedade civil está mobilizando?
Não nos cabe continuar vivendo este paradoxo: de um lado, pregamos a qualidade e a dignidade da vida; de outro, não nos organizamos efetivamente para a garantia das mesmas.
O que realmente já conquistamos para os idosos?
Podemos citar os movimentos de terceira idade, que, talvez, sejam os que ofereçam oportunidades para a manutenção de uma vida mais plena, apesar das limitações do ser humano. Podemos também lembrar os asilos, as casas-dia, os hospitais e outros sistemas que abrigam e cuidam de idosos, mas que, na maioria das vezes, não têm o preparo necessário para os atendimentos, tornando-se verdadeiros depósitos de espera pelo fim de uma vida, não com olhar na vida que ainda existe, que é presente e pode (por que não?) ser extremamente participativa. Uma vida participativa, com privacidade, com dignidade. Lya
Luft nos explica que
a idade madura não precisa ser o começo do fim, idade avançada não precisa ser isolamento e secura. Podem-se fortalecer laços amorosos, familiares, de amizade, variar de interesses, curtir melhor o gozo das coisas boas. Existir é poder refinar nossa consciência de que somos demais preciosos para nos desperdiçarmos buscando ser quem não somos, não podemos, nem queremos ser. (2003, p. 94).
Continua Luft:
é assim o tempo: devora tudo pelas beiradinhas, roendo, corroendo, recortando e consumindo. E nada nem ninguém lhe escapará, a não ser que faça dele seu bicho de estimação (2003, p. 92-93).
Quantas colaborações e lições ainda podem ser dadas pelo acúmulo do saber que somente a longevidade e a experiência da vida construíram?
O que propomos não é apenas a criação de espaços em formas cooperativas, essenciais aos tempos de hoje, mas, também, a formação de conselhos consultivos junto a instituições, de espaços para a troca,
para o conto, para a história, para a inserção social permanente. Falamos tanto em inclusão e excluímos os que, pela própria idade, tanto contribuíram e tanto têm a contribuir. Excluímos os que mais merecem
nosso respeito e nossa humildade.
Kofi Annam lembra o provérbio africano que diz: “Quando morre um velho, desaparece uma biblioteca”.
Nossos velhos estão desafiados a sobreviver, não a viver. Sentem-se como um peso, quando ainda podem ser uma alavanca.
É necessário, pois, que a sociedade se organize para que possamos resgatar o verdadeiro valor que queremos dar à vida. Tratar bem as crianças e os idosos não será um resgate de valores que verdadeiramente bloqueará a violência?
Em países desenvolvidos já encontramos espaços disponibilizados para os idosos. No Japão, por exemplo, há uma ilha onde existem prédios com apartamentos que proporcionam conforto e lazer. O apoio à saúde e à vida é permanente, assim como a assistência social, a psicoterapia, a psicologia, a medicina geriátrica. Os atendimentos não se limitam às urgências; presta-se atendimento regular e sistemático de controle.
No Brasil, em razão do aumento da longevidade, é necessário que se crie um clima favorável para que pensemos em alternativas dignas para a terceira idade. Efetivamente, já existem algumas iniciativas, como, por exemplo, o Hospital da Cidade, de Passo Fundo, que possui um clube de campo estruturado para receber seus funcionários com conforto, oferecendo alternativas de lazer, vida social, assistência psicossocial e geriátrica. Ainda podemos citar a Universidade de Passo Fundo, que, no Centro Regional de Estudos e Atividades para Terceira Idade (Creati), oportuniza aos adultos maduros e idosos de Passo Fundo e região situações de convivência, aprendizagem e serviço, com vista a resgatar a cidadania e a dignidade, buscando inserção social e proporcionar um envelhecer saudável.
Muitas são as conversas que povoam os nossos consultórios e que nos revelam situações até então inusitadas. Pais idosos queixam-se de seus filhos, que ainda são dependentes economicamente, pouco afetuosos e não têm obrigações com filhos e netos. Porém, essa dependência econômica não é a maior fonte de queixas, mas, sim, a ausência afetiva o é. Essa mudança – quase uma crise – faz com que o idoso busque
alternativas sadias de prolongamento da vida, ou melhor, de estar presente e ativo; vivo, completa e plenamente vivo.
Como precisa trabalhar, mesmo depois de aposentado, em funções alternativas para ajudar os filhos, aprende a estabelecer limites para si e para os que estão a sua volta (hoje, quero descansar; hoje, vou ao
trabalho); não está totalmente disponível; aprende a buscar lazer e saúde nos movimentos de terceira idade ou acadêmicos; está mais ativo e presente; estabelece novas amizades ao invés de ficar na dependência afetiva dos filhos e netos, cada vez mais ausentes.
Lya Luft nos lembra que:
Não é preciso consenso, nem arte, nem beleza ou idade:a vida é sempre dentro e agora (a vida é minha para ser ousada.)A vida pode florescer numa existência inteira.Mas tem de ser buscada, tem de ser conquistada.
Em outras palavras, é preciso viver sempre da forma mais plena que possamos. Esse é o desafio de todos nós.
Albino Julio Sciesleski
Marisa Potiens Zilio
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